O olho que tudo vê
"Uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende.
Só o coração nos poderá tornar melhores e é essa a grande função da arte."
Candido Portinari
Brodowski (1942)
O olho humano é a nossa câmera fotográfica. Tudo ao nosso redor é "fotografado" instantaneamente por esse incrível sistema de ver o mundo. A natureza, as pessoas, os objetos são como textos complexos que precisamos decodificar para lhes atribuir sentidos. Nós, como leitores desse universo de imagens, só conseguimos atribuir sentido ao que "lemos" devido ao nosso banco de dados - a nossa mente. Todas as nossas experiências desde o ventre materno estão salvas nesse incrível HD. E é esse histórico individual, composto tanto por histórias boas como ruins, que nos permite ter impressões desse mundo visual de maneira muito particular.
Quando nós humanos olhamos imagens, a tendência quase que automática é lhe atribuir algum valor estético, geralmente o que chamamos de belo. Há indícios científicos que atestam que esse valor parte da ideia de perfeição simétrica. Nós humanos usamos a simetria como ponto de partida para "julgar" o quão perfeito é o mundo imagético que nos cerca. E a natureza seria o primeiro objeto que apreciamos por esse valor. O rosto simétrico - aquele que tem proporções exatas em cada lado - é ao qual mais é atribuído o valor de belo.
Além da noção de proporção, para que possamos "ler" imagens é preciso levar em consideração o contexto - tanto o de sua produção como o do espectador. O de produção pois ele é reflexo de seu tempo. Um tempo que na maioria das vezes não é mais o mesmo tempo do leitor. Este pode até saber, por meio de leituras sobre a época que a imagem foi feita, como era o contexto. Isso é relevante para que ele possa se deslocar tempo e espacialmente para a época de sua produção, se colocar no lugar de seu artista, compreender quais eram as imposições sociais que são refletidas na obra. A vida pessoal do artista também não é imune a esse contexto. Suas marcas, como ele sentia o mundo a sua volta, e até mesmo o seu universo interior, são elementos fundamentais. São as próprias imagens do mundo que cerca o artista que se revelam como os elementos fundamentais para constituir o seu meio de eternizar o tempo vivido por meio de sua obra. Ela é a fotografia, ela é o seu olhar.
O leitor dessa imagem, por outro lado, além de conhecer melhor o universo de produção para que possa atribuir àquela imagem uma interpretação maior e melhor do trabalho do artista, ele também precisa considerar o seu próprio contexto. O que ele já viveu até o momento é fundamental para que esse leitor também consiga ampliar o seu próprio universo de leitura. Quando esse diálogo entre contextos de produção e de recepção não acontece, a leitura da obra até é possível, mas certamente será uma leitura mais rasa, isso se ela acontecer. Caso contrário, a obra imagética será apenas mais uma para ser vista, mas não apreciada como merece.
Lucia Santaella afirma em seu livro Leitura de imagens (2012), que para ler imagens ou alfabetizar-se visualmente é preciso desenvolver a observação de aspectos e de traços constitutivos presentes no interior da imagem, sem extrapolar para pensamentos que nada têm a ver com ela. Como orientação desse tipo de texto - a imagem - Santaella orienta que o leitor pergunte:
- Como as imagens se apresentam?
- Como indicam o que querem indicar?
- Qual é o seu contexto de referência?
- Como e por que as imagens significam?
- Como as imagens são produzidas?
- Como elas pensam?
- Quais são seus modos específicos de representar a realidade que está fora dela?
- De que modo os elementos estéticos, postos a serviço da intensificação do efeito de sentido, provocam significados para o observador?
Essas dicas são valiosas. Além de apenas ver uma imagem, as respostas a essas perguntas permitirão um diálogo único entre ela e o seu apreciador.
Um exercício que eu gosto muito de fazer é escolher aleatoriamente uma imagem, tentar tirar dela tudo que eu conseguir apenas a admirando. E somente após esse momento que vou atrás de informações acerca de sua produção. E quanta surpresa eu tenho tido!!!
A primeira delas me mostra o quanto eu ainda preciso aprender deste mundo. O quão insignificante eu sou diante da história da humanidade.
Quer tentar fazer esse exercício também?
Primeiro, acesse o Google Arts & Culture. Navegue por ele o quanto quiser, selecione algumas imagens que chamaram a sua atenção.
Após, escolha uma para responder as perguntas da professora Lucia Santaella.
E então invista um tempo buscando informações sobre o artista, em que período sua obra foi produzida, onde ele vivia, quantos anos tinha. Essas informações irão auxiliá-lo e muito na leitura dessa imagem. Após, procure informações mais técnicas, como por exemplo: a qual período estético ela pertence e quais seriam as características desse momento. Outra coisa que ajuda muito é visitar a própria obra em um museu. No site do Google Arts isso é possível e é muito interessante. (Este recurso não está disponível para todas as obras)
Outra opção fascinante é utilizar a ferramenta de zoon do site. Ela permite que consigamos olhar os detalhes da obra como se estivéssemos com uma lupa em mãos. Muitas obras que estão expostas nos grandes museus nem sempre estão ao alcance de nossos olhos. Por serem tão famosas, há uma distância que precisamos obedecer para podê-la apreciar. Com o zoon, conseguimos ver coisas que nem se estivéssemos a centímetros dela conseguiríamos! Como a tecnologia ampliou a nossa visão de mundo - literalmente.
Não sabe por onde começar? Que tal conhecer um pouco sobre Candido Portinari???
Um pouco além:
- Neste link você encontrará um vídeo do canal Pirilampo no qual Pedro Braga e André Pédico apresentam algumas técnicas para ler imagens e como esse tipo de leitura é cobrado no ENEM. Nele são apresentadas análises de obras de Caravaggio, Vik Muniz, Laerte e muito mais!
- Google Arts & Culture Sugestão para ver de perto: The Tower of Babel - Pieter Bruegel, o Velho (1563)
- Resenha 1 do texto Leitura de Imagens
- Resenha 2 do texto Leitura de Imagens
SANTAELLA, Lucia. Leitura de imagens. São Paulo: Melhoramentos, 2012. (Coleção Como eu ensino).



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